Entre Ambientes | Cris Salles

Design de Interiores, Arquitetura e Estilo de Vida.

5 composições de interiores que se destacaram na CASACOR 2026

Durante uma visita à CASACOR 2026, algumas combinações chamaram minha atenção pela maneira como diferentes elementos foram relacionados dentro dos ambientes.

A 39ª edição da mostra, teve como tema “Mente e Coração” e reuniu 70 ambientes em uma área construída superior a 10 mil m². Entre os movimentos observados na edição estão a presença de texturas, materiais naturais, vegetação, cores intensas, formas curvas e madeiras em tons mais escuros.

O que mais me interessou durante a visita, porém, foi observar como esses elementos foram combinados.

Uma madeira escura ganha outra leitura quando aparece ao lado de uma pedra clara. Uma cor intensa pode assumir protagonismo quando encontra uma base mais controlada. A vegetação cria outra relação quando aparece junto de madeira, pedra e iluminação adequada.

É nessa relação entre os elementos que entra a composição de interiores.


O que é composição de interiores?

Composição de interiores é a organização dos elementos que formam um ambiente, considerando relações de cor, material, textura, forma, proporção, escala, iluminação, mobiliário e objetos.

Esses elementos precisam trabalhar em conjunto para criar uma leitura coerente do espaço e, ao mesmo tempo, atender às necessidades de quem vai utilizá-lo.

Por isso, quando observo um ambiente, gosto de olhar para além da peça individual.

Pergunto como aquele móvel se relaciona com a marcenaria, como a cor conversa com os materiais, onde existe contraste, qual elemento recebe maior destaque e como a iluminação interfere na percepção.

Essa leitura ajuda a entender por que algumas combinações funcionam tão bem.

Na CASACOR 2026, encontrei alguns exemplos especialmente interessantes.


1. Madeira escura + tons naturais

A madeira escura apareceu com bastante presença nos ambientes da mostra, aplicada em painéis, mobiliários e marcenarias. Tons próximos de café, tabaco e madeiras profundas contribuíram para criar ambientes com maior densidade visual.

Nas imagens que registrei, ela aparece associada a diferentes elementos naturais, como pedra, fibras, couro, tecidos e vegetação.

Essa combinação funciona porque a madeira já apresenta uma presença visual importante. Quando ela encontra materiais com tonalidades naturais e diferentes texturas, conseguimos construir uma composição rica sem depender de uma grande quantidade de cores.

Em uma marcenaria escura, por exemplo, uma pedra clara pode criar contraste. Tecidos em bege ou areia podem reduzir a concentração de tons profundos. Plantas podem introduzir o verde e acrescentar uma camada de textura.

A madeira escura também tem aparecido em projetos contemporâneos justamente por sua capacidade de criar uma atmosfera mais envolvente e sofisticada. Publicações especializadas em interiores vêm destacando sua combinação com pedras naturais, couro e palha.

Como usar madeira escura na decoração?

A madeira escura pode ser utilizada em marcenarias, painéis, portas, mobiliário e detalhes arquitetônicos. Para equilibrar sua presença, podemos trabalhar com materiais claros, iluminação adequada, tecidos naturais e pontos de cor.

A proporção entre esses elementos precisa considerar o tamanho do ambiente, a quantidade de luz e a atmosfera desejada.


2. Madeira escura + cores intensas

Outra combinação que apareceu de maneira interessante foi a relação entre bases escuras e cores mais marcantes.

Em um dos ambientes registrados, o vinho aparece no sofá enquanto a madeira escura ocupa grande parte da composição. A vegetação, os tecidos claros, as obras de arte e os objetos complementam essa relação.

Aqui, o ponto principal está no contraste.

A madeira cria uma base profunda e a cor intensa assume uma posição de destaque. O resultado ganha personalidade porque existe uma diferença clara entre os elementos, mas eles continuam conectados pela paleta geral do ambiente.

Os tons de ameixa, violeta profundo e marsala também foram destacados entre as cores presentes na CASACOR 2026. A mostra apresentou esses tons em marcenarias, tecidos e outros elementos, criando ambientes com maior profundidade cromática.

Como usar cores fortes na decoração?

Uma cor intensa pode aparecer em diferentes escalas.

Ela pode ocupar um sofá, uma poltrona ou uma parede, mas também pode entrar em uma obra de arte, uma almofada, um tapete ou um objeto.

A escolha depende da função que aquela cor terá na composição.

Quando o objetivo é criar um ponto focal, por exemplo, podemos concentrar a cor em um elemento específico e manter os demais mais coordenados. Quando queremos uma atmosfera mais envolvente, podemos repetir a tonalidade em diferentes superfícies.

O importante é observar a relação entre matiz, intensidade, proporção e contexto.


3. Plantas + materiais naturais

A presença da vegetação também chama atenção nas imagens da CASACOR 2026.

Em alguns ambientes, as plantas aparecem em pequenos arranjos. Em outros, ocupam áreas maiores e participam diretamente da composição arquitetônica.

Nas fotos que registrei, a vegetação aparece principalmente em conjunto com madeira, pedra, fibras e tons terrosos.

Essa aproximação pode ser relacionada aos princípios do design biofílico, que considera diferentes formas de conexão entre as pessoas e a natureza dentro dos espaços. A vegetação representa uma dessas possibilidades, junto de elementos como materiais naturais, iluminação natural, vistas para áreas verdes e referências às formas encontradas na natureza.

A própria leitura da CASACOR 2026 destacou a presença de espécies exóticas e plantas nativas em ambientes internos como parte dessa aproximação entre interiores e natureza.

Como usar plantas em projetos de interiores?

A escolha das plantas precisa considerar as condições reais do ambiente.

Iluminação, ventilação, umidade, espaço disponível, escala e manutenção interferem diretamente na solução. Por isso, a vegetação pode participar do projeto de diferentes maneiras, desde um vaso pontual até um jardim interno.

Quando ela é escolhida considerando essas condições, passa a fazer parte da composição com a mesma atenção dedicada aos demais elementos.


4. Tons neutros + diferentes texturas

Outra combinação muito presente nos ambientes observados foi a relação entre uma paleta mais controlada e uma grande variedade de texturas.

Madeira, pedra, couro, tecidos, fibras, tapetes e superfícies naturais aparecem próximos uns dos outros.

A CASACOR 2026 teve forte presença de texturas, com aplicações em paredes, pisos, móveis, tecidos e objetos. A variedade de superfícies foi apontada como uma das características marcantes da edição.

Essa estratégia é especialmente interessante para quem gosta de ambientes mais neutros.

Quando trabalhamos com poucas cores, podemos criar variedade através das superfícies.

Imagine uma sala composta por bege, marrom e madeira. A paleta pode ser relativamente discreta, mas a percepção muda quando entram um tapete de trama aparente, uma poltrona de couro, almofadas de diferentes tecidos, uma mesa de madeira e uma pedra com desenho natural.

A cor permanece coordenada, enquanto as texturas acrescentam profundidade.

Como criar profundidade usando texturas?

Uma boa composição pode combinar superfícies lisas e rugosas, opacas e brilhantes, macias e estruturadas.

A diferença entre elas cria variedade visual e tátil.

Por isso, escolher materiais semelhantes em cor e diferentes em textura pode ser uma estratégia interessante para ambientes que precisam de sofisticação sem depender de muitas cores.


5. Base neutra + pontos de cor

Entre as imagens que registrei, uma das composições mais interessantes aparece em uma parede ocupada por uma série de obras com diferentes cores e formas geométricas.

A parede e o mobiliário funcionam como uma base mais controlada, enquanto as obras assumem o papel de destaque.

Essa relação demonstra como a cor pode ajudar a estabelecer hierarquia visual.

Quando todos os elementos possuem a mesma intensidade, o olhar encontra menos referências para definir onde deve se concentrar. Quando existe diferença entre base e ponto focal, alguns elementos ganham maior importância dentro da composição.

A mesma lógica pode aparecer em uma sala através de uma poltrona colorida, em um quarto através da roupa de cama ou em uma marcenaria através de objetos selecionados.

O ponto de cor não precisa dominar o ambiente para participar da sua identidade.

Ele precisa encontrar o lugar adequado dentro do conjunto.


O contraste também pode aparecer nos materiais

Quando falamos em contraste na decoração, muitas pessoas pensam imediatamente em preto e branco ou em cores muito diferentes.

  • Dentro de um projeto de interiores, porém, o contraste pode aparecer de outras maneiras.
  • Uma pedra fria pode estar próxima de uma madeira quente.
  • Uma superfície lisa pode encontrar uma textura marcada.
  • Um móvel de linhas retas pode ser acompanhado por uma peça de formas curvas.
  • Uma marcenaria escura pode receber objetos claros.
  • Um tecido opaco pode estar próximo de um elemento metálico.

Essas diferenças ajudam a criar variedade e hierarquia dentro do ambiente.

Nas imagens da CASACOR 2026, esse princípio aparece de várias maneiras, principalmente na relação entre materiais naturais, texturas, cores e formas. A edição também destacou a presença de formas arredondadas, que foram utilizadas para trazer suavidade e favorecer ambientes voltados ao descanso e à convivência.


O que a CASACOR 2026 mostra sobre as tendências de interiores?

A visita à mostra permite observar alguns movimentos importantes para os interiores em 2026.

A madeira escura aparece com força, enquanto cores mais profundas ocupam espaços maiores. Texturas ganham importância, materiais naturais aparecem em diferentes aplicações e a vegetação participa cada vez mais das composições.

Também existe uma valorização maior de ambientes que apresentam conforto, memória, personalidade e experiência sensorial. A Forbes, ao analisar a edição, destacou justamente o aconchego, as texturas, os materiais naturais, o maximalismo e a valorização da identidade entre os principais movimentos observados na mostra.

Isso ajuda a entender uma mudança interessante na maneira de olhar para as tendências.

O interesse está cada vez mais relacionado à forma como os elementos são combinados e à experiência que o ambiente proporciona.


Como levar essas referências para um projeto real?

Observar uma tendência pode ampliar o repertório, mas a aplicação precisa partir das características de cada projeto.

  • Uma madeira escura pode ser excelente para uma sala, mas a quantidade utilizada precisa considerar a iluminação e as dimensões do ambiente.
  • Uma cor intensa pode valorizar uma composição, mas sua aplicação precisa considerar a paleta existente.
  • Uma parede verde pode criar uma relação interessante com a natureza, mas a escolha das espécies precisa respeitar as condições do espaço.
  • Uma grande variedade de texturas pode trazer profundidade, mas a composição precisa manter uma relação entre os elementos para preservar a unidade visual.

Por isso, quando encontro uma referência que gosto, a pergunta que faço é, “O que faz essa composição funcionar?”

A resposta pode estar no contraste, na proporção, na repetição de uma cor, na escolha dos materiais, na iluminação ou na maneira como diferentes texturas foram distribuídas.

Esse olhar permite transformar uma referência em repertório de projeto.


Tendências podem inspirar, e o projeto define a escolha

A CASACOR é um espaço excelente para observar materiais, cores, soluções e diferentes formas de construir ambientes.

As tendências ajudam a ampliar possibilidades, mas cada projeto possui uma realidade própria.

Existe uma família com determinada rotina. Existe uma arquitetura com determinadas características. Existem hábitos, necessidades, preferências, objetos afetivos, obras de arte e memórias que precisam participar das decisões.

Por isso, uma combinação vista em uma mostra pode servir como referência, enquanto sua aplicação será definida pelo contexto de cada projeto.

É essa análise que permite trabalhar tendências sem deixar que elas determinem a identidade do ambiente.

No final, o que permanece relevante é a relação entre as escolhas.

A madeira precisa conversar com a cor. A textura precisa fazer sentido junto dos materiais. O mobiliário precisa respeitar a escala. A iluminação precisa valorizar a composição. Os objetos precisam encontrar seu lugar.

E quando essas decisões estão conectadas, o ambiente consegue apresentar personalidade com equilíbrio.

Cris Salles

Designer de interiores há mais de 20 anos, com atuação em Belo Horizonte. Assina projetos residenciais e corporativos que unem sofisticação, funcionalidade e atemporalidade, sempre a partir da escuta atenta de quem vai viver aquele espaço.

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